Advogados têm procurado abrir escritórios próprios ou investir em novos segmentos

Muitos advogados têm procurado abrir escritórios próprios ou investir em novos segmentos. Saiba se você está preparado para empreender

Aproximadamente ¾ dos brasileiros têm vontade de empreender nos próximos cinco anos, segundo pesquisa do Instituto Endeavor. Quem pensa em iniciar a sua própria empresa, geralmente, fica receoso em colocar o negócio para funcionar quando há uma grande crise econômica. Isso é natural, pois os resultados sonhados podem não vir tão rápido quanto se espera. Quando há crises, a economia se retrai, as pessoas gastam menos e os empreendedores precisam usar a criatividade para, no mínimo, tentar manter o mesmo ritmo de vendas. Além disso, a maioria que pretende criar um negócio adia o sonho por receios diversos. Mas, será que é correta esta percepção? Há que se considerar que, já que a maioria pensa dessa forma, pode ser justamente em momentos como esses que um negócio deva ser iniciado. Isso tem um fundamento prático e que pode explicar o porquê: enquanto uns choram, outros vendem lenços!

QUEM EMPREENDE

Há dois perfis básicos de pessoas que buscam abrir seu próprio negócio: aqueles que perderam (ou estão na iminência) de perder o emprego e os empreendedores natos.

Sobre o primeiro grupo, há algumas ponderações a fazer. Em 2015, o Brasil cortou mais de 1,5 milhão de empregos com carteira assinada, o pior status desde 1992. A crise econômica, política e institucional está aí e o desemprego já atinge mais de 9 milhões de pessoas no país. Dados recentes do IBGE mostraram que o desemprego chegou aos 9% e há projeções que, no fim do ano, serão 11%. Segundo o instituto, o PIB (Produto Interno Bruto) do país teve uma queda de 3,8 % em 2015. Entre as vítimas dessa desaceleração estão os 9,1 milhões de brasileiros que estão desempregados, 2,6 milhões a mais que há um ano. Sem fonte de renda, o desemprego crescendo e a estabilidade desaparecendo, trabalhadores demitidos têm tomado o rumo do empreendedorismo. Três em cada dez dispensados do antigo emprego, segundo o SEBRAE, investem no próprio negócio, muitas vezes, por pura necessidade.

No segundo grupo – o dos empreendedores natos –, seja por possuírem histórico de empreender, seja por crenças e características pessoais próprias, empreender é algo natural e visto como o principal meio de ganhar dinheiro. Muitos empreendedores nunca trabalharam para outras pessoas. Outros, até já foram empregados, mas mudaram de lado na mesa. Há ainda aqueles que enxergam no empreendedorismo possibilidades futuras de uma renda adicional quando se aposentarem.

EM AMBOS OS CASOS

Aquele que deseja empreender deve ter em mente que não basta uma boa ideia e algum (ou muito!) dinheiro para começar o próprio negócio. Empreender é algo mais complexo do que isso! Estudos mostram que qualquer negócio em fase inicial, com investimento de até R$ 1 milhão, pode levar até dois anos para atingir o ponto de equilíbrio. E cerca de 3,5 anos para recuperar o investimento inicial. Os que se destacam são os mais bem preparados.

Quanto à questão da crise econômica em si, olhando para a história, é possível observar que as mais recentes não têm sido duradouras. Pelo contrário, são cíclicas. Por isso, talvez valha a pena cogitar iniciar um negócio agora, pois em quaisquer circunstâncias, um negócio em fase inicial terá dificuldades para crescer rápido, pois tudo é novo, os clientes ainda não existem, a marca é desconhecida, a equipe encontra-se em formação etc. Esse tempo que leva para fazer a empresa decolar pode ser um bom laboratório para o empreendedor testar o seu modelo de negócio com menos concorrência, já que a maioria pisa no freio em momentos de crise, corta investimentos e adia novos projetos.

Obviamente que tomar tal iniciativa envolve muitos outros fatores, inclusive, o apetite para o risco do empreendedor. Arriscar de maneira calculada é algo nítido no perfil dos empreendedores que se destacam. A decisão não é simples e fácil, mas os dados do passado mostram que é na crise que muitos projetos bem-sucedidos são iniciados.

ALGUMAS PONDERAÇÕES PRELIMINARES

Para quem pretende iniciar o próprio negócio neste momento, há algumas dicas essenciais para direcionar um bom negócio e evitar ou mitigar os efeitos das crises:

Inteligência – O empreendedor deve ratificar o poder de venda do seu produto ou serviço. Para isso, uma primeira reflexão faz-se necessária e ele deve ponderar o que ele, como empreendedor, deve fazer para atrair os clientes que necessita e que já estejam comprando de outras empresas do mercado. Qual será seu diferencial: qualidade, preço, inovação? O que fará o consumidor mudar de fornecedor? Baseado nestas breves reflexões, todo um plano de negócios deverá ser criado.

Mercado – A inteligência para perceber o que deseja o mercado está diretamente ligada a como o empreendedor entende o mercado, como o vê. De nada adianta o empreendedor oferecer um ótimo produto ou serviço se o mercado não está precisando dele. Ele deve, primeiramente, checar se o que pretende oferecer é demandado pelo mercado consumidor.

Financiamento – Em épocas de crise e contextos macro e microeconômicos revoltos, as linhas de crédito ficam mais escassas e, por vezes, mais caras. Deve ser avaliado qual a estrutura financeira da futura empresa, se haverá injeção de capital somente do empreendedor, se haverá captação no mercado financeiro, seja para investimento ou capital de giro. As empresas que pretendem um modelo baseado em grau de endividamento alto, devem redobrar a atenção.

Possibilidades – Em linhas gerais, toda a economia está retraída, salvando-se um ou outro setor. O fato é que os setores que oferecem bens de maior valor absoluto, automóveis, por exemplo, e os que dependem de produtos ou insumos importados ou cujos custos estejam atrelados à variação cambial, foram fortemente afetados. Tudo o que é visto como supérfluo também foi fortemente afetado, como viagens, laser e refeições fora de casa. Assim, o empreendedor deve mapear as possibilidades que sejam menos sensíveis às intempéries e, talvez, uma boa opção sejam aqueles negócios que produzem ou comercializam produtos de menor preço final ao consumidor.

Negociação – Um empreendedor possui algumas características – as quais abordarei mais a frente – mas, sem dúvida, uma das mais importantes é saber negociar: com fornecedores, parceiros e até clientes.

MARCA PRÓPRIA OU FRANQUIA?

Uma outra questão que o empreendedor deve analisar é se vale a pena iniciar seu negócio atrelado a uma marca já estabelecida – uma franquia – ou iniciar sua marca “do zero”. Franquias, por já terem estruturados marca e modelo de negócios podem, em um primeiro impulso, ser a melhor solução. Será? Sem dúvida que é uma boa possibilidade, mas há que se avaliar algumas premissas antes. Vamos ver alguns prós e contras para ajudar a elucidar o tema:

VANTAGENS DA FRANQUIA

• Estrutura de negócios pronta e marca consolidada.
• A marca já possui boa reputação no mercado.
• O risco da empresa dar errado é menor. Mesmo assim, o retorno financeiro não é instantâneo e dependerá também do ponto escolhido e da administração do negócio.
• Ao adquirir uma franquia, o empreendedor recebe suporte e treinamento.
• Um aliado das vendas é a publicidade e em redes de franquias, o investimento neste quesito costuma ser menor, pois são rateados por toda a rede.

DESVANTAGENS DA FRANQUIA

• Autonomia limitada: é preciso seguir as regras da marca e da franquia como um todo por contrato. Até o guardanapo tem de ser idêntico ao das outras lojas franqueadas!
• Se o contrato não for renovado, você não poderá atuar no mesmo ramo por dois anos.
• Investimento para adquirir uma franquia pode ser substancial. O investimento inicial para abrir uma filial de O Boticário é cerca de 250 mil reais. Para juntar-se à rede de vestuário Hering deverá investir R$ 560 mil. Já o Bob’s cobra 955 mil. Estes são valores aproximados e podem sofrer alterações com o tempo, mas servem como parâmetro.
• Gastos adicionais: além da taxa franquia, há um valor mensal cobrado à título de propaganda e royalties (em forma de taxa fixa ou porcentagem sobre o faturamento). Isso onera o fluxo de caixa substancialmente.

VANTAGENS DO NEGÓCIO PRÓPRIO

• Plena autonomia: pode fazer o que quiser com a marca e os produtos.
• Se o negócio não prosperar, nada a impede de começar de novo no mesmo ramo imediatamente.
• Você pode montar a loja do jeito que achar melhor. É possível orçar preços com os fornecedores até encontrar um valor que seja bom para todos.
• Você é completamente livre para ampliar ou diminuir seu portfólio a qualquer momento.

DESVANTAGENS DO NEGÓCIO PRÓPRIO

• No início das operações, não há público fidelizado nem força da marca; ninguém conhece a marca.
• Você assume 100% dos ônus, mas também dos bônus!
• Precisa pagar mais caro para contratar serviços de terceiros, devido a comprar em menor escala.
• Terá como concorrentes, dependendo do ramo de atuação, grandes redes de franquias.

VAI EMPREENDER, TEM QUE APRENDER

Como não basta somente uma boa ideia e dinheiro no bolso, algumas ações são interessantes para o empreendedor:

• Converse com outros empreendedores: há encontros de empreendedorismo em várias cidades, onde você pode encontrar sócios, parceiros e clientes, bem como ouvir tanto histórias de sucesso quanto de fracasso.
• Desenvolva-se: gerenciar as operações de uma empresa e seus recursos (financeiros e humanos, por exemplo) não são atividades triviais. É necessário capacitar-se para dar conta de tudo disso e várias competências (técnicas, gerenciais e comportamentais) são fundamentais: saber definir cenários, estabelecer estratégias, gerenciar finanças, construir redes de relacionamento, habilidade e capacidade de liderança de pessoas e negócios, saber delegar funções, negociar, motivar funcionários e sócios, planejar, administrar o tempo, estabelecer objetivos são algumas das características importantes. Os comportamentos em destaque são otimismo, autoconfiança, coragem para aceitar riscos, desejo de protagonismo e resiliência.
• Suporte psicológico: o empreendedor, no início, é envolvido em tudo no negócio e, na maioria das vezes, não tem todas as respostas. Por isso, é fundamental que tenha preparo psicológico para lidar com situações estressantes e inquietantes diariamente.
• Inspiração é a chave: vá atrás de informações de grandes empresas e empreendedores que você admira. Leia sobre o assunto e estude a respeito. A inspiração pode vir até mesmo da concorrência!

CONSIDERAÇÕES

General Motors, IBM, FedEX e Proctor & Gambel são exemplos de grandes empresas que surgiram em tempos de crise. Onde quer que haja uma necessidade ou uma crise, ali também reside uma oportunidade: identifique-a! Sua atitude, determinará sua altitude!

* Agradecemos ao Alexandre Praod, coach, consultor de empresas, escritor e professor de cursos na área de desenvolvimento humano e organizacional, e é CEO da Núcleo Expansão. Tem no currículo sólida formação acadêmica, incluindo especializações em Nova Iorque, Boston e Oxford, e vasta experiência como alto executivo de empresas nacionais e multinacionais.

Revista Visão Jurídica – Ed. 119

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