Internacionalização para sair da crise

Da Redação | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A crise econômica e a instabilidade política do Brasil nunca estiveram tão evidentes. Mais evidente do que elas, apenas o mercado, que tem sofrido para manter as suas contas operando no azul. Porém, a internacionalização das empresas pode ser uma alternativa em época de crise. O mercado internacional pode “salvar” muitos negócios, haja vista que pode encontrar consumidores até do outro lado do planeta, criando novos clientes e permitindo, assim, que os empresários não fiquem “reféns” de uma única economia. Para esclarecer mais sobre o assunto, entrevistamos a advogada Andréa Giugliani, do escritório da Giugliani Advogados, que conta o que é necessário para se aventurar em terras estrangeiras e suas vantagens.

 

QUALQUER EMPRESA PODE SE INTERNACIONALIZAR, INCLUSIVE AS DE PEQUENO PORTE? 

Sim, qualquer uma, inclusive as de pequeno porte. Existem várias formas de se internacionalizar. A exportação de produtos e serviços, por exemplo, é um bom caminho para se iniciar e conhecer novos mercados, e já se inicia esse processo de internacionalização. Na verdade, com certo preparo e conhecimento do mercado internacional, qualquer empresa pode ser internacionalizada, basta estar disposta a enfrentar novos desafios e se preparar com parceiros estratégicos.

 

QUAIS TIPOS DE DESAFIOS E COMO O EMPRESÁRIO PODE SUPERÁ-LOS?

Internacionalizar seu negócio significa que você vai empreender em um novo país. Se empreender nos seu próprio país já é um desafio, imagina então num novo local, novo mercado, idioma diferente, pessoas diferentes, hábitos de consumo distintos dos nossos, culturas e valores típicos da região, além da forma como os outros países fazem negócios, práticas comerciais, créditos disponíveis, tributos, contratos etc. Por exemplo, uma diferença comercial que impacta bastante: nos EUA não há a cultura de se comprar parcelado como temos aqui. Só isso já faz uma grande diferença para um pequeno comércio. Para aliviar ou superar esses desafios, não tem outro jeito: o planejamento prévio. Estudar o mercado, a cultura e os valores do país, a forma como se fazem os negócios, quem sabe até mesmo ir até lá antes,para conhecer um pouco melhor e contar com players estratégicos que possam facilitar essa superação dos desafios.

 

ALÉM DE “FUGIR” DA CRISE DO BRASIL, QUAIS OS BENEFÍCIOS QUE TER UMA EMPRESA INTERNACIONALIZADA PODEM TRAZER AOS NEGÓCIOS?

Fortalecimento da marca em nível nacional é uma das maiores vantagens, ao meu ver. Você passa a ser uma empresa global, antenada no mundo e, com isso, o reconhecimento e a credibilidade do público local aumentam. Além disso, você conhecerá novas práticas de negócio, podendo ter insights de inovação para o seu negócio local. Conhecer novas tecnologias, novos parceiros que podem trazer redução de custos e aumento da lucratividade ou mesmo otimização da sua operação.

 

POR QUAL MOTIVO VOCÊ ACREDITA QUE BOA PARTE DOS EXECUTIVOS AINDA NÃO PENSOU NESTA HIPÓTESE E ABRIU SEUS HORIZONTES PARA ESTE MERCADO? 

Acredito que pelo receio de não dar certo ou até mesmo por não saber por onde começar. Alguns empresários apenas tomaram conhecimento – ou melhor, “abriram os olhos” – para o mercado internacional, em face da crise do nosso país, pois até então as vendas e o consumo interno bastavam para a sua operação. Com a crise econômica brasileira, a queda das vendas e a paralisação do mercado nacional, olhar para o vizinho começou a ser importante para a manutenção da sua atividade e também para não ficar tão vulnerável a apenas um só mercado. Por isso que agora esse assunto está tão em pauta.

 

É NECESSÁRIO ALGUM TIPO DE INVESTIMENTO; ALÉM, É CLARO, DO ESTUDO DE MERCADO? 

Isso depende muito. Inicialmente, o maior investimento é o tempo dos executivos em pensar nesse assunto e planejar uma operação. Eventualmente, outros custos após esse período de estudo serão necessários, obviamente. Mas, de início, entendo que é mais a vontade de inovar e buscar alternativas, dedicando-se tempo a esse estudo.

 

POR QUE A ALEMANHA É UM BOM PAÍS PARA COMEÇAR? E OS EUA?

Não há um país ideal. Isso depende muito da sua atividade. Existem países que possuem alguns atrativos e facilidades para empresas que estão buscando se internacionalizar. Na palestra, trouxemos representantes desses países que cuidam desse tipo de incentivo à internacionalização, como Alemanha, EUA e Portugal. Mas existem muitos outros como o nosso vizinho Paraguai, que criou condições muito favoráveis para as indústrias brasileiras. Muitas delas, inclusive de grande porte e renome, acabaram levando sua operação industrial para lá, face às grandes vantagens industriais, semelhantes ao que o México fez anos atrás com o Projeto Maquila para a industrialização do país.

 

EM QUANTOS PAÍSES ESSA EMPRESA PODE ESTAR PRESENTE? 

Em cada um deles há uma legislação e uma série de regras a serem “obedecidas”, provavelmente.

 

COMO SE ADAPTAR A CADA UM? 

A empresa pode estar presente no mundo todo! Isso depende da operação dela. Necessariamente, não precisa estar fisicamente em todo o mundo, mas pode ter seus produtos e serviços onde o mercado consumidor demandar e tiver um bom estudo de operação de logística para viabilizar. Para isso há, sim, regras a serem obedecidas, tal como temos aqui no Brasil, como a Vigilância Sanitária, Ministério da Agricultura (SIF), INMETRO, locais etc. Mas essas questões devem estar no planejamento prévio e sempre focando em bons resultados para a viabilidade da operação como um todo, claro!

 

QUANTO TEMPO PODE LEVAR UM PROCESSO DESSES? 

Se o executivo já souber o que quer e para onde vai, o processo é muito mais simples e fácil do que se imagina, pois já entramos com a “mão na massa” – isto é, preparando os atos constitutivos da empresa no país escolhido, realizando o estudo de planejamento tributário internacional (que é fundamental para a viabilidade do projeto), procedendo ao registro da marca e dos demais procedimentos necessários para operar no país e vender os produtos, prestar serviços ou industrializar algo. Isso é rápido, desde que a lição de casa prévia da própria empresa de estudar, ainda que superficialmente o mercado, já tenha sido feita.

 

O PROCESSO PARA INTERNACIONALIZAÇÃO DE UMA EMPRESA É DEMORADO? COMO FUNCIONA?

Isso depende muito de empresa para empresa, do tipo de setor da economia ele está inserido, do produto, se exige certificação internacional para a venda ao exterior ou não, quais mercados demandam etc. Não é nada complexo, mas é um estudo caso a caso.

 

E SE EXISTE A POSSIBILIDADE DE ALGO NÃO DAR MUITO CERTO OU NÃO ACONTECER, QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DISSO PARA O EMPRESÁRIO?

As consequências não são muito diferentes das que poderia acontecer no Brasil. Depende do status da empresa e o que ela já operou lá. Mas basicamente terá que arcar com os passivos que criou e fechamento da empresa local.

 

Adaptado do texto “Internacionalização de empresas pode ser a saída da crise”

Revista Visão Jurídica Ed. 123