A psicopatia destrinchada

Uma análise dos sentimentos, comportamentos e a psicopatia que pode existir em qualquer um de nós

Por Walkyria Carvalho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Situação 1: Você conhece uma pessoa legal, gente boa, que com pouco tempo diz amar você e querer constituir uma grande e linda família. Parece milagre, mas aquele é o sonho que se torna realidade…! Aparentemente prestativo, aquele ser humano diz que quer aprender ou compartilhar com você todas as experiências de vida que forem possíveis, plantando na sua cabeça uma realidade que, sinceramente, nem existe… Em pouco tempo, esse “presente” que você ganhou suga de você tudo o que você tem: dinheiro, tempo, boa vontade, boa fé, amor e principalmente sua saúde. Abandona você e parte para as próximas vítimas: parte sem remorso, sem caridade, sem compaixão nem respeito para com você e faz tudo de novo – ilude, se compromete, suga o que o outro tem e parte pro próximo. É o vampiro que ataca investido de boa alma.

 

Situação 2: Numa sala empresarial ou numa repartição pública, um chefe esfacela a cabeça do seu subordinado com críticas, maldades, perversidades e muito sadismo. Impõe obrigações que não são do funcionário, senta-se à sua cadeira e ri perversamente, porque sabe que o sadismo e a humilhação do próximo são combustíveis do seu corpo, ausente em sentimentos nobres.

 

Situação 3: Homem dirige numa estrada e é trancado por uma mulher em um veículo. Tomado por ira, segue a vítima até seu destino, abordando-a e, em seguida, matando-a com requintes de crueldade.

 

Agora a pergunta: o que se torna mais provável acontecer – você ser vítima de um estelionato sentimental, ser moralmente assediado por um chefe sádico ou ser morto por uma pessoa que decidiu torna-lo(a) vítima de um incidente notadamente irrelevante?

 

Psique: Convivendo com o perigo

 

As pessoas geralmente associam os psicopatas a doentes mentais, pessoas que matam sem piedade ou remorso, mas isso, embora fomente uma larga discussão, não procede. Os psicopatas são pessoas aparentemente comuns, como eu e você, como todos nós. São revestidos de normalidade, gentilezas, humildade, apresentando-se como gente boa, gente simpática e compreensiva. Claro que podem matar, mas a maioria infringe sentimentos e regras sociais, a fim de conseguir objetivos que nem sempre são a morte de alguém. Na realidade, a saúde mental de um psicopata não é abalada, porque é preciso até muita atividade mental focada no discernimento para agir com a frieza de um psicopata, por isso o transtorno não é considerado propriamente uma doença mental, como uma esquizofrenia, por exemplo. O que ocorre, em verdade, é a inércia dos sentimentos, a frieza, a ação calculada e bem medida do algoz. É muito mais comum encontrar psicopatas livres e dissimulados na bondade humana a vê-los presos, pois sua ação, mormente considerada inteligente e sagaz, é projetada para que o mesmo não se enrede na teia maquiavélica que este predador social constrói.

 

Como saber em quem confiar? Se as pessoas podem demonstrar ausência de sentimentos e cumplicidade, bondade e muitas vezes até mesmo o mais lídimo sentimento de caridade, como saber sobre a distinção na primeira fase, aquela em que o predador se mostra bonzinho, gentil e muitas vezes humano e sensato? Na realidade, isso é muito difícil de se reconhecer, mas a precaução deve sempre ser redobrada quando se está em uma fase frágil da vida.

 

MENTES PERIGOSAS
AUTORA: ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA
210 PÁGINAS – BROCHURA
PREÇO: R$ 39,90
ED. FONTANAR – 2008

Uma das obras mais interessantes sobre o assunto, embora escrito por uma médica psiquiatra, em nada lembra aquelas obras que parecem extensos relatórios, cheios de termos absurdamente complicados. Não. “Mentes Perigosas – o psicopata mora ao lado”, de autoria de Ana Beatriz Barbosa Silva é um livro completo, com informações, exemplos de vida, elementos empíricos e muita história para contar. Sua linguagem trafega entre o coloquial e o técnico, permeando de familiaridade todo o texto, dificultando a decisão de suspender a leitura, até mesmo para a pausa do cafezinho…você simplesmente não conseguirá parar de ler! O texto é muito bem redigido, os termos bem posicionados, o vocabulário adequado para o tema e, principalmente, proveniente de uma autora bem instruída e familiarizada com o que escreve.

 

Em uma de suas passagens mais interessantes, a autora faz menção ao questionamento feito sobre a maioridade penal. Com muita acuidade, Dra. Ana Beatriz constrói uma redação que visa a demonstrar o paralelismo entre a maioridade e a menoridade, caminhando entre os transtornos mentais, comportamentos, personalidades e o meio em que vivem, analisando atos no Brasil e em parte do mundo. Demonstrando uma pesquisa muito bem realizada e apurada em fontes de grande relevância de crédito, a autora permeou seu texto de informações ricas e complementares ao seu conhecimento, fazendo com que o livro se tornasse uma fonte de leitura, mas ao mesmo tempo um lazer informativo, uma vez que as notícias veiculadas na mídia e que fizeram do assunto psicopatia um elemento presente nos jantares dos lares brasileiros, através dos mais variados telejornais, firmaram existência na mente das pessoas, sendo estas carentes de uma instrução acurada sobre o tema.

 

É temerário saber que, no Brasil, o sistema carcerário não possui procedimento de diagnóstico para a psicopatia, no momento em que há a solicitação de redução de pena ou análise de cumprimento de pena em regime semi-aberto. Um estabelecimento prisional para pessoas portadoras de psicopatia foi uma idéia levantada no texto da autora, que inclusive deu surgimento a projeto de lei para esse fim. Para ilustrar o seu enredo, a autora evoca a história de Francisco Costa Rocha, conhecido pelo codinome “Chico Picadinho”, preso por esquartejar uma mulher e, após ser liberado pelo cumprimento de pena, aliado ao bom comportamento, esquartejou outra vítima. Questiona-se, portanto, se um psicopata não teria direito à liberação após cumprimento de pena como outro criminoso qualquer, ou se essa avaliação psicológica não o encarceraria para sempre, uma vez que a psicopatia torna-se elemento irreversível, o que levaria ao entendimento da aplicação de pena perpétua. Sem dúvidas, o livro Mentes Perigosas… é uma obra de profunda relevância, porque a autora não exagerou em momento algum. De fato…ele pode estar, agora, ao seu lado. Leitura indispensável.

 

*Walkyria Carvalho é especialista em Ciências Criminais pela UFPE; especialista em Ciências Jurídicas pela FESMP/MT, formada pela AESO/ PE; professora da Pós-Graduação da Faculdade Joaquim Nabuco e da Academia Integrada de Defesa Social – ACIDES; professora de Direito Penal e Criminologia do site Eu Vou Passar
(www.euvoupassar.com.br)

Adaptado do texto “A psicopatia destrinchada em Mentes Perigosas”

Revista Visão Jurídica Ed. 81