Incongruências da experimentação científica em animais

Por Ricardo Laurino* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Na maioria das vezes, o debate quanto à utilização ou não de animais em testes inicia-se antes mesmo de se discutir o assunto. De um lado, pessoas preocupadas em debater rumos e limites do desenvolvimento por meio das ações humanas e, de outro, um grupo de estudiosos, detentores de técnicas e diplomas, que pretende estabelecer entre si quais são esses rumos e limites.

 

Com a invasão, por parte de ativistas, do laboratório do Instituto Royal, a discussão acendeu-se em nosso país e, ao defender suas posições, pesquisadores tentam desqualificar a opinião de pessoas leigas quanto ao tema, como se elas nada tivessem a acrescentar ao debate. Entretanto, pode ser que o grande público não conheça os detalhes da utilização de animais em pesquisas e muito menos seus obscuros resultados, mas não é preciso ser um especialista para opinar entre ser contra ou a favor do uso desses animais como meras ferramentas de trabalho, destituídas de interesses e desprovidas de sentimentos, como a dor e o sofrimento. Dessa forma, deixo claro que o fato de não ser uma experimentadora não desqualifica qualquer pessoa a dar sua opinião quanto ao uso de animais em pesquisas.

 

História

Não é difícil questionar a eficácia dos experimentos científicos, já que as grandes catástrofes farmacológicas foram previamente testadas em animais. Técnicas medicinais com graves e irreversíveis erros, além de uma série de substâncias altamente tóxicas e prejudiciais à saúde humana, mas que, somente daqui a alguns anos, serão detectadas – perceba a quantidade de medicamentos que são retirados das prateleiras de tempos em tempos por problemas, muitas vezes fatais, não previstos –, apontam esses testes como uma provável falácia científica para o nosso moderno mundo do século 21.

 

Para exemplificar, podemos citar Albert Sabin, que declarou que as primeiras doses da vacina contra a poliomielite, aplicadas em seres humanos, matou as pessoas que as receberam, mas nada acontecera nos testes anteriores com animais. Além disso, tudo nos leva a crer que diversas drogas que poderiam salvar seres humanos não tiveram seus estudos concluídos por conta de resultados negativos em pesquisas com animais.

 

Outro ponto muito questionável é que, mesmo entre humanos, as reações a determinadas substâncias são diversas, por conta de inúmeros fatores biológicos característicos de cada indivíduo. Como o médico americano Ray Greek cita em seus artigos, a própria indústria farmacêutica já assumiu a eficácia média de suas drogas em 50% das pessoas, podendo este porcentual ser maior ou menor em determinados casos – é uma exigência da ciência médica a eficácia em 90% dos casos.

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Entretanto, mais importante do que isso é entendermos o fundamento da objeção pela experimentação animal, independentemente de seus resultados. Uma pergunta deve ser obrigatoriamente respondida, para assumirmos uma ou outra posição: se, para pesquisadores, animais são semelhantes aos humanos em suas reações e sensações, não deveriam ter semelhantes considerações relativas aos seus interesses de não serem submetidos à dor, ao trauma físico e psicológico, à humilhação, ao temor, à morte com hora marcada, assim como são considerados os interesses de seus “semelhantes” humanos? É difícil imaginar uma resposta a tal questão que defenda a pesquisa em animais, sem que sejam usados argumentos que passem pela incoerência e a tendenciosidade.

Conceito

Apesar disso, a velha e antiquada filosofia médico-científica perpetua, por meio da pseudoautoridade do conhecimento, a ideia de que animais são “pequenos humanos”, devido a essas semelhanças. Não são poucos os ativistas e pesquisadores contrários aos testes em animais que dizem: “Os testes em animais servem para evitar processos milionários que pesquisadores e empresas responderiam pelas reações adversas, muitas vezes, irreversíveis e mortais aos seres humanos, quando do uso de seus produtos e técnicas pelos consumidores”. É um “certificado de garantia”, tendo respaldo de seus protocolos e “códigos de ética”, por eles mesmos criados, de terem sido previamente testados. Ou seja, “lavamos nossas mãos, pois fizemos a nossa parte”.

 

Diante desse cenário, da incoerência e da resistência a novos conceitos, podemos observar a triste, mas real situação de adultos, que, quando crianças, pediam a seus pais permissão para levar para suas casas um “vira-lata” ou um gato abandonado por compaixão. No entanto, hoje, por causa de uma cultura de continuismo e retrocesso, alimentada por “mestres” e “doutores”, submetem ratos, gatos, porcos, sapos, cachorros, coelhos e outros animais a verdadeiras sessões de tortura – desde privações das necessidades básicas, até mesmo órgãos abertos, fraturas, entre outras intervenções contra seres que nada têm a ver com suas práticas.

 

Quantos não são aqueles que, com extrema aptidão a profissões relacionadas à Medicina, à Veterinária, entre outras, abandonam seus sonhos ao ver que, para realizá-los terão de abrir mão de sua sensibilidade e respeito para com os animais? Diversos são os estudos que demonstram como os próprios estudantes, quando expostos pela primeira vez a tais circunstâncias, sentem-se incomodados e contrariados, mas que, por vergonha e medo de serem excluídos do grupo, submetem-se ao processo “invisível” da dessensibilização, ou abandonam seus cursos, sob o desdém de muitos de seus colegas e professores.

 

Revista Visão Jurídica Ed. 91

Adaptado do texto “Teste fatal”

*Ricardo Laurino é autor do livro O Último Teste, lançado em setembro deste ano. Trata-se da primeira obra literária a abordar a experimentação científica em animais por meio da ficção policial.